A região da Serra Gaúcha está localizada no
nordeste do estado do Rio Grande do Sul, região Sul do Brasil; item 4 do mapa
História
Imigrantes italianos começaram a chegar à região no final do
século XIX. Na época, ainda não fora estabelecido um
idioma italiano oficial na Itália, e o uso de dialetos ainda era predominante. Os italianos que imigraram para o Brasil eram de diferentes partes da Itália, mas no sul do Brasil e no Espírito Santo
[9] predominaram os imigrantes do norte da
Península Itálica, principalmente das regiões do
Vêneto, da
Lombardia, do
Trentino-Alto Ádige e do
Friuli-Venezia Giulia. Destes, cerca de 60% eram de língua e cultura vênetas.
[2]
Os imigrantes que chegavam falavam diversos dialetos mas, com o tempo, o vêneto se sobrepôs aos outros falares dialetais, formando um
coiné que servia como meio de comunicação em vista da diversidade linguística trazida pelos colonos. Em algumas localidades onde houve maior concentração de imigrantes provenientes de uma determinada localidade na Itália, ainda é possível reconhecer especificidades dialetais de alguma região da Itália (como exemplo, a comunidade de Pomeranos, onde o dialeto trentino conseguiu se manter). Mas, de maneira geral, as colônias eram habitadas por pessoas de diferentes partes da Itália, colocando em contato vênetos, lombardos, trentinos e, mais raramente, friulanos. Como havia uma predominância demográfica de vênetos, com o passar do tempo a fala foi evoluindo para um linguajar mais geral, formando um dialeto vêneto brasileiro, compreendido por todos os italianos e descendentes da região.
[2]
Nas primeiras décadas de imigração, havia grande resistência da comunidade italiana em se misturar com os brasileiros. O processo de integração foi lento. Esse isolamento durou cerca de cinquenta anos, a contar do início da imigração, em 1875. No sul do Brasil, muitas colônias italianas eram situadas em regiões isoladas ou relativamente independentes da população brasileira. Isso permitiu a manutenção do uso da fala dialetal italiana por gerações. Tal fato não foi possível, por exemplo, no estado de São Paulo onde, desde o início, os imigrantes italianos tiveram contato diário com a população brasileira local, e seus dialetos foram rapidamente suplantados pela língua portuguesa.
[10]
O vêneto falado no sul do Brasil e no Espírito Santo é arcaico quando comparado ao vêneto falado atualmente na Itália, pois é semelhante ao usado no século XIX. Ademais, com o advento da rádio e da televisão, começou uma forte interferência da língua portuguesa no vêneto falado pelos imigrantes no Brasil. Em decorrência, o vêneto brasileiro evoluiu de forma diferente da variedade falada na Itália, uma vez que incorporou itens lexicais do português e se manteve ligado à maneira como era falado no século XIX. Assim, usa-se o termo
talian para diferenciar o vêneto falado no Brasil do dialeto vêneto hoje usado na Itália.
[2]
Contudo, o talian não é considerado um dialeto crioulo italiano, mas sim uma variante brasileira da
língua vêneta. Da mesma forma que o
Riograndenser Hunsrückisch, um dialeto falado por descendentes de
alemães no Sul do Brasil, o talian não é considerado uma língua estrangeira no Brasil, mas sim uma língua nacional brasileira, sem status de língua oficial (com exceção do município de
Serafina Corrêa).
[11]
O talian falado no Brasil e o vêneto atualmente falado na Itália são a mesma língua e, apesar de ambas as variedades linguísticas terem evoluído de forma diferente e hoje possuírem algumas diferenças, continuam mutuamente inteligíveis.
[2]O talian é a segunda língua mais falada do Brasil, após o português.
[2] O isolamento das colônias do sul permitiu a manutenção da fala dialetal italiana, sobretudo vêneta, com destaque para o norte do Rio Grande do Sul.
[12] Ali nasceu um
koiné oriundo da convivência de diversos dialetos italianos, mas com uma predominância vêneta que serviu como língua franca para a comunicação dos falantes de diferentes formas dialetais. Para o Rio Grande do Sul houve um fluxo majoritariamente vêneto e lombardo e, na primeira fase, que durou de 1875 a 1910, os imigrantes preservaram seus dialetos regionais vênetos e lombardos, além de falares minoritários trentinos e friulanos. O segundo período inicia-se a partir de 1910, com a construção da estrada de ferro que liga Caxias do Sul a Porto Alegre. O isolamento foi rompido, aliado ao incremento comercial e industrial. Em consequência, os dialetos menos representativos numericamente foram extintos, ao mesmo tempo que os dialetos lombardos e vênetos se interinfluenciaram, com a predominância dos últimos, surgindo uma fala comum, um
koiné, chamado de
talian.
[10]
Na década de 1930 e durante a
Segunda Guerra Mundial, a campanha de nacionalização instituiu o aprendizado obrigatório do português e proibiu o uso da fala dialetal italiana. Os italianos eram considerados a "quinta coluna" e houve grande repressão policial nas colônias contra o uso do dialeto. Pessoas foram presas e até espancadas pela polícia ao serem pegas falando dialeto nas ruas. No mesmo período, formava-se um novo grupo de descendentes de italianos, mais urbanos e enriquecidos, que menosprezavam o dialeto e davam preferência ao português, enxergando o falante de talian como um colono grosso e rural, inferiorizando-o socialmente.
[10] Todos esses fatores levaram a criação de um estigma de ser falante de talian e os pais muitas vezes optavam por não transmitir a língua a seus filhos, para evitar que estes fossem estigmatizados ou motivo de chacota nas escolas por não falarem bem o português ou por falá-lo com uma fonética italiana. O êxodo rural também contribuiu para o declínio no uso da fala dialetal, pois nos centros urbanos a língua portuguesa era dominante e as gerações nascidas no meio urbano não adquirem o talian como língua materna.
[10]
O uso do dialeto vai se perdendo ao longo das gerações. A primeira e a segunda gerações nascidas no Brasil costumam falar o dialeto, mas a partir da terceira já começa a haver a perda gradual do uso, por meio do bilinguismo com o português. Na quarta geração o dialeto é apenas uma memória familiar e na quinta desaparece a memória também.
[10]Atualmente, não se sabe quantas pessoas falam o talian no Brasil, mas há quem estime em 500 mil o número de seus falantes.
[13] Nos últimos anos, os governos regionais tem tentado revitalizar o dialeto. Em 2009, o talian foi reconhecido como Patrimônio Histórico e Cultural do Rio Grande do Sul e o próprio estigma de ser falante dessa língua vem dando lugar a um orgulho.
[10]
O talian absorveu, e continua a absorver, diversas influências da língua portuguesa. Hoje, parte significativa do seu vocabulário tem origem no português, se distanciando parcialmente do dialeto vêneto atualmente falado na Itália.
[14]Todavia, apesar dos
brasileirismos presentes no talian, ele é ainda muito próximo ao dialeto vêneto usado na Itália, sendo ambas as variedades linguísticas inteligíveis.
[2] Em
2013 foi lançada no Brasil a
revista Brasil Talian, que busca divulgar a língua
talian.
[15] [16]
Língua oficial
Municípios em que o ensino da língua italiana é obrigatório
Espírito Santo
Paraná
Rio Grande do Sul
Santa Catarina
São Paulo
Municípios em que o ensino da língua italiana é facultativo em todas as escolas públicas
São Paulo
Municípios brasileiros que possuem língua co-oficial talian (ou dialeto vêneto)
Estados brasileiros em que o talian possui status de patrimônio linguístico
O declínio
As línguas faladas no Nordeste da Itália, estando o vêneto marcado em verde claro.
O censo de 1950 mostrou que, dos 458 mil falantes de italiano no Brasil, 64,62% viviam no Rio Grande do Sul, 20,87% em Santa Catarina e 9,99% em São Paulo.
[10]
O uso do idioma talian no Brasil entrou em declínio desde a
década de 1930, com a
campanha de nacionalização. O governo nacionalista de
Getúlio Vargas proibiu seu uso, tanto escrito, como oral. Falar talian em lugares públicos e privados no Brasil era considerado ofensivo e falta de patriotismo, e os italianos e descendentes foram de certa forma obrigados a aprender o português. Houve grande repressão policial nas colônias, inclusive pessoas foram presas e espancadas ao serem pegas falando o talian nas ruas. O mesmo ocorreu com o idioma alemão no país. Isso contribuiu para que se criasse um estigma em ser falante de talian, e muitos pais simplesmente optaram por não transmitir a língua para os seus filhos, visando protegê-los de serem estigmatizados.
[10] Somado a isso, na década de 1930 começou a surgir um novo grupo de descendentes de italianos, mais urbanos e enriquecidos, que davam preferência à língua portuguesa e passaram a menosprezar o dialeto, cujo uso ficou associado ao trabalhador rural e pouco instruído. A própria urbanização contribuiu para o declínio do uso do talian, pois no meio urbano predominava o uso do português, e as gerações nascidas nos ambientes urbanos raramente aprendem o talian.
[10]
| Pessoas que usavam o italiano no lar, por gerações (censo de 1940)[36] |
| Gerações | Número de falantes |
| Primeira (imigrantes) | 53.000 |
| Segunda (filhos) | 120.000 |
| Terceira e seguintes (netos, bisnetos etc) | 285.000 |
| Total | 458.000 |
O talian atualmente
Não se sabe ao certo o número de falantes do talian no Brasil, porém estimativas apontam em 500 mil o número de pessoas que usam essa língua,
[37] a maioria dos quais são bilíngues e também falam o português. Atualmente, os falantes de talian têm se empenhado para resgatar a língua, principalmente nas regiões povoadas por italianos no sul do Brasil. Diversos livros já foram publicados no idioma talian. Existem estações de rádio que transmitem algumas horas de sua programação em talian em vários municípios do
Rio Grande do Sul e
Santa Catarina, e algumas do
Espírito Santo[38] [8] ,
Paraná e
Mato Grosso.
[39]
Também está em fase de produção o vídeo-documentário
Brasil Talian,
[40] com direção e roteiro de André Costantin e a produção executiva do historiador Fernando Roveda.
[41] O pré-lançamento ocorreu em
18 de novembro de
2011, data que marcou o início da produção do documentário.
[42] [43]
Entidades religiosas, como as Testemunhas de Jeová (Testimònie de Geovà, em Talian) em anos recentes começaram a publicar livros e revistas no idioma Talian, mantendo sua própria equipe de tradução desse idioma na Serra Gaúcha. Vídeos religiosos já foram produzidos em tal dialeto pelas Testemunhas, além de 11 outros materiais impressos (tratados e brochuras).
É possível fazer downloads totalmente gratuitos do site www.jw.org/vec/.[44]
Em 2013 foi lançada a
revista Brasil Talian, que busca divulgar a língua
[50] [51] e em 2014, foi certificado como patrimônio nacional.
[52] [53]
| Exemplos da influência do português no talian [14] |
| Palavra no talian | Palavra no vêneto original | Palavra no italiano padrão | Palavra em português |
| Bolo | Torta | Torta, dolce | Bolo |
| Caro, auto | Machina, auto | Macchina, auto | Carro |
| Coraçon | Cor, core | Cuore | Coração |
| Galignero | Punaro ou punèr | Pollaio | Galinheiro |
| Garafa | Butiglia | Bottiglia | Garrafa |
| Inton, alora | Alora | Allora | Então |
| Praia | Spiaia | Spiaggia | Praia |
| Sapatero, scarpèr | Caleghèr ou scaporlin | Calzolaio | Sapateiro |
| Sià, scià | Tè | Tè | Chá |
| Simarón, Scimarón | - | - | Chimarrão |
| Sorasco, chorasco | - | - | Churrasco |
| Verón | Istá | Estate | Verão |
| Como non! | Certo! Certamente! Sicuramente! | Certo! Certamente! Sicuramente! | Como não! |
Ver também
Referências
- Ir para cima↑ Talian: il dialetto veneto brasiliano, Italiani in Brasile
- ↑ Ir para:a b c d e f g Gênese e Evolução dos Dialetos Trentino e Vêneto
- Ir para cima↑ Sarah Loriato (2014). Northern Italian dialects in Santa Teresa, Brazil 36th LAUD Symposium. University of Koblenz/Landau.
- Ir para cima↑ Dialeto falado por imigrantes italianos é reconhecido como patrimônio nacional.
- Ir para cima↑ Brasil Talian documentado em filme.
- Ir para cima↑ Talian Brasil - Intervista con casal Benjamim Falqueto - Venda Nova del Imigrante - ES.
- Ir para cima↑ I dessendenti taliani che parla el talian. Venda Nova do Imigrante – Espírito Santo – Brasil.
- ↑ Ir para:a b Chico Zandonadi, Radialista del talian – Ràdio FMZ, Venda Nova do Imigrante – ES.
- Ir para cima↑ ESPIRITO SANTO, LO STATO PIU' VENETO DEL BRASILE.
- ↑ Ir para:a b c d e f g h i Marley Terezinha Pertile (2009). O Talian entre o italiano-padrão e o português brasileiro:...Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Visitado em 19/1/2014.
- ↑ Ir para:a b Vereadores aprovam o talian como língua co-oficial do município, acessado em 21 de agosto de 2011
- Ir para cima↑ "No prosseguimento de sua análise(...)Contrariamente aos imigrantes e descendentes do Estado de São Paulo, onde houve uma miscigenação maior com a população local"O Talian entre o italiano-padrão e o português brasileiro:...p. 46..
- Ir para cima↑ Acredite: Um terço das línguas está sumindo
- ↑ Ir para:a bhttp://www.celsul.org.br/Encontros/09/artigos/Carmen%20Faggion.pdf
- Ir para cima↑ Revista Talian Brasil
- Ir para cima↑ Revista Talian Brasil, Taliani nel mondo
- ↑ Ir para:a b LEI Nº 14.951, de 11 de novembro de 2009
- ↑ Ir para:a b Rotary apresenta ações na Câmara. FEIBEMO divulga cultura italiana
- ↑ Ir para:a b Fóruns sobre o Talian - Eventos comemoram os 134 anos da imigração italiana[ligação inativa]
- ↑ Ir para:a b Aprovado projeto que declara o Talian como patrimônio do RS, acessado em 21 de agosto de 2011
- ↑ Ir para:a b Vereadores aprovam o talian como língua co-oficial do município, acessado em 21 de agosto de 2011
- ↑ Ir para:a b Talian em busca de mais reconhecimento[ligação inativa]
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Ligações externas